Estou doente. E não é doente da forma convencional que todo mundo conhece, não! Eu estou realmente doente. Doente e em apuros.
Há uns anos atrás, eu dizia que estava doente quando, por ventura, adquiria uma gripe rápida, um resfriado de dois dias ou, mais seriamente, um machucado em alguma parte do corpo em acidentes (sempre fui profissional neles). Mas dessa vez não. Dessa vez é diferente. Dessa vez eu sei que estou doente. E todos os instintos do meu corpo vibram em coral – e com uma trombeta – anunciando isso. E só Deus sabe os riscos que eu corro.
Quando eu era criança, costumava achar que vivia em um mundo mágico, em uma eterna fantasia. E eu não me culpo. Culpo minha mãe, que enchia meu quarto com filmes da Disney. De qualquer forma, eu acreditava que vivia um sonho real: sem responsabilidades, sem trabalhos, sem preocupações, onde o único motivo para ter tristeza era perder o horário do meu desenho animado favorito. E, mais que isso, eu pensava que as pessoas eram intactas e nunca sofriam de nada. Dizem por aí que as crianças são mais sensitivas, que percebem as coisas mais facilmente, mas eu não era assim. Eu tinha tudo fácil demais, era sempre simples demais, quase perfeito.
E foi assim por um bom tempo. Até que, em um dia qualquer, eu sofri meu primeiro machucado. Sério, quase dez anos de idade e eu nunca tinha sofrido um arranhão muito grande. Parece bobagem, mas aquele machucado significou muito pra mim. Enquanto eu via meu sangue escorrendo em minhas mãos e as lágrimas em meus olhos, eu comecei a perceber quão frágil era. E aquilo mudou minha vida para sempre. E, de repente, eu me tornei a pessoa mais sensível do mundo todo, quase sem exageros.
As consequências? Ah, muitas! Eu fui crescendo e, inevitavelmente, fui conhecendo o mundo real, fui saindo do meu “conto de fadas” particular. E aí, meu querido, a coisa ficou realmente feia. Decepções atrás de decepções. Tristeza já não era perder o episódio do meu desenho favorito, mas perder uma pessoa. Mesmo assim, mesmo com tantas coisas que me infernizavam, mesmo com tanta “labuta”, eu nunca, nunca mesmo, me senti como estou me sentindo agora.
Olha, você precisa saber: viver duas décadas é muita coisa. E eu, particularmente, já vivi de quase tudo e já sofri de quase tudo. Mas hoje eu estou aqui, doente de uma doença que está me fazendo morrer aos poucos. E não é morrer da forma física, não! Não é morrer e, papú!, acabou vida, pode trazer o caixão. É pior. É muito pior. É morrer por dentro, é matar aquilo que é sua única segurança pra encarar esse mundão aí fora: a esperança. E, meu amigo, quando a esperança morre, o resto todo perde sentido.
E essa doença é tão impertinente, que me invade as entranhas, alástra-se pelo meu corpo e apodera-se da minha alma, deixando-me sem forças para fazer qualquer coisa que seja. Perco a vontade de sair, perco a vontade de até mesmo levantar da cama quando acordo. E dói. Cara, como dói! É uma dor safada, porque ela fica “cutucando” aquele órgão que eu tinha esquecido a existência faz tempo: o coração. Porque é isso aí, por um bom tempo eu achei que não tinha mais coração. Mas essa doença é engraçada, ela faz de propósito, ela faz doer somente para me mostrar o quanto eu estava errada e que meu coração continua lá. Frio e vazio, mas continua lá.
Ou melhor, não mais tão vazio, agora está cheio dessa dor. Essa dor que nunca pensei sentir e que nem mesmo achei que era possível sentir. Minha mente já não consegue se ocupar com nada mais, só em buscar uma forma, qualquer uma, de me livrar disso. Mas essa é a parte negativa. Eu estou doente de uma doença que tem cura. Mas estou em apuros, porque eu não sou merecedora dessa cura, então é como se ela não existisse. Estou presa no meu maior pesadelo, naquela parte dos contos de fadas em que a “bruxa” aparece. E eu estou sem saída. Mais do que nunca, sem nenhuma saída.
Desventurada.