Bumerangue Contemporâneo
Sim, eu sei que nossas palavras machucam demais às vezes. Mas vai. Já brigamos demais, tudo que falamos e fizemos no passado destruiu o que nós fomos juntos. Vai dar uma volta para refrescar a cabeça. Já foi tudo por água abaixo mesmo. Não quero mais discutir. Ando cansada. Sim, cansada de você. Também. De futilidades, hipocrisias, distorções, indiferença, desprezo e de todas as suas chatices.
Eu que fui embora sim, não precisa dizer. Eu posso ir e voltar atrás quando eu quiser. Sou dona do meu nariz, saio sem avisar, faço as regras e não tenho hora pra chegar. Você deveria ter enxergado isso antes. Eu nunca disfarcei esse meu jeito meio impulsivo de ser. Dá licença?
Está um dia lindo, por que você não vai dar um passeio com seus novos amigos ou com sua nova amiga? Tá quente, exatamente como você gosta. Tem sol. Céu azul, sem nuvens, com o asfalto escaldante desta cidade feia e com a tal praia que você tanto ama. Não, eu não quero ir junto. Posso ler um pouco? Não, não quero companhia. Quantas vezes eu falei pra você que preciso ter meus momentos sozinha?
Não sei. Talvez eu tenha saído quando você voltar. Não gosto de planos. Agora eu não quero. Depois é outra história. É, ultimamente eu tenho passado muito tempo fora de casa. Se não estou na rua, durmo na casa de alguém. E, sabe, até penso em não voltar. Não atendo o celular de propósito, na verdade. Ele não estava sem rede, fui eu quem apertou o maldito botão vermelho. Feliz?
Eu sou assim. Amo. Desamo. Apaixono-me. Desapaixono-me. Falo. Desfalo. Faço. Desfaço. Planejo. Desplanejo. Escrevo e apago, ando para a frente e para trás. E se eu quiser andar para o lado, qual o problema? Eu vou e volto, como um bumerangue contemporâneo. Não é maravilhoso poder reverter as coisas e começar tudo de novo?
Eu vou embora, mas eu sempre volto. Sempre volto pra você. E se você não voltar? Acho que sentirei sua falta. Não, eu sentirei realmente a sua falta. Mas eu penso nisso depois. Agora, vai.





